Quanto vale o show?

Setembro 28, 2009 por saracadore

Publicada na Revista My Wave

Tem jeito de mensurar o valor da arte? Neste tempo em que bandas como o Radiohead desafiam o público colocando suas canções a venda por preço livre, como medir o investimento? Com tantas novas formas de vender a produção de um músico honesto, quanto vale o show, maestro?

Há algum tempo, o mercado fonográfico está no olho do furacão e a previsão continua instável. A velha fórmula das grandes gravadoras está vencida e não acompanha nem de longe a velocidade com que os recursos da internet se renovam. O formato MP3, patenteado em 1994 pela Fraunhofer Society, democratizou a música através da rede e acabou se tornando o principal concorrente das gravadoras, com um atributo our concur: é de graça.

O jornalista e DJ Lúcio Ribeiro é quem nos adianta as novidades do mundo da música em seu blog www.popload.com.br. Segundo ele, buscar alternativas para realizar transações no universo musical é um processo ainda em fase de descobertas, onde nada é definitivo. “Pode ser que o modelo de negócios para a música tenha que mudar totalmente. Muitas bandas estão doando sua produção e ganhando dinheiro só com shows lotados, em grandes eventos com grandes patrocinadores por trás”, afirma. Para ele, isso é uma realidade entre a maioria dos músicos: “O modelo antigo de grande gravadora, que é de certo modo predadora e que ruiu com as novas tecnologias, beneficiava um número muito pequeno de grupos”.

Hoje, qualquer um pode chamar três amigos, formar uma banda e, com uma mínima estrutura, enviar sua música de dentro do seu quarto diretamente para os internautas de toda a web, de graça, eliminando os intermediários de venda e até as interferências na criação. “Antes, você dependia da gravadora pra te colocar em uma rádio, às vezes com jabá, às vezes com assessoria de imprensa, outras com um trabalho que interessava mais a empresa do que o músico. Esse processo acabou. Por outro lado, é impossível fechar a questão sobre o modo como isso vai acontecer, ainda estamos no esquema de tentativa e erro”, avalia Lúcio.

Primeiro eram o Napster, o Soul Seek, o Kazaa, o e-mule. Depois o You Tube, o Myspace, o I-Tunes, a Last FM, os celulares que vêm com álbuns completos. E quais serão os próximos recursos? É inútil especular, se o que é tendência hoje vira obsoleto amanhã. Talvez um dos portais mais populares entre os músicos de nossos tempos seja o Myspace, onde gratuitamente, qualquer banda pode se inscrever, disponibilizar sua música, fotos em alta, release e, ainda, trocar ideia com muita gente que está no mesmo barco. Sem contar que com uma boa divulgação, sua lista de seguidores pode se multiplicar a cada dia.

Os gaúchos da Severo em Marcha fazem parte da leva atual de novas bandas de um Estado que é celeiro de talentos. Eles colocam a mão no fogo pelo uso do Myspace (www.myspace.com/severoemmarcha). Seu som bebe na fonte de várias vertentes do rock e foi divulgado através desta rede social. O vocalista Ricardo Sabadini conta como o site foi um grande abre portas para a banda: “É nossa principal ferramenta de divulgação. Usamos a internet com muita força, nos dedicamos e acabamos bombando entre formadores de opinião no Brasil inteiro”. Para o pessoal da Severo, viver da música tem um significado bem abrangente: “São vários mercados: banda, jingles, estúdio, produção… Vai da capacidade de assimilar e querer trabalhar, saber usar as ferramentas disponíveis, ser criativo e ter muita vontade”, afirma o baixista Edu Meirelles. O vocalista reforça: “Exploramos e curtimos muito os shows. A grana vem deles, onde também acabamos vendendo discos. Com a maioria é assim. As gravadoras são foda. As bandas têm que se empresariar. Somos como uma micro empresa”.

Para o multiartista FLU, que tem entre seus projetos a Banda Leme e a Robô Gigante (confira em www.myspace.com/bandaleme e www.myspace.com/robogigante) “O valor da invenção de algo é medido pelo gasto de neurônios e isso não tem como passar pra moeda corrente”. Este pensamento faz de FLU um “baixador compulsivo de músicas”, como ele mesmo definiu. É claro que a contrapartida é verdadeira e cada plano em que FLU está envolvido também está disponível na rede. “Se existe uma energia sendo colocada no trabalho, de maneira ou de outra ele vai trazer um retorno”, acredita. O cara sempre optou por caminhos diferentes de mostrar seu trabalho, e não só utiliza a internet como produz muitas trilhas para cinema, TV e publicidade. Ele lembra que alguns blogs são as melhores maneiras para encontrar raridades musicais na rede, destacando o Bolacha Grátis (www.bolachasgratis.baywords.com).

De fato, para a alegria da geral, quem mais se beneficia hoje com as tantas opções para disseminar a música é o público. “Se tem alguém vencendo com tudo isso é o próprio ouvinte, é o lado de lá, quem consome a arte, exatamente porque ele tem uma série de mecanismos e instrumentos novos que o permitem eliminar a influência de rádio, gravadora, jornal… Ele não precisa de um grande jornalista para orientá-lo, podem ser as dicas de um amigo”, aconselha Lúcio Ribeiro. É a independência em relação ao mainstream.

Na contramão do conceito convencional, artistas consolidados andaram inspirando seus fãs e pupilos. Um bom exemplo foi a atitude dos ingleses do Radiohead, que desvinculados de gravadora, lançaram em 2007 o álbum In Rainbows em dois formatos: dez faixas em MP3 ou uma box com mais 7 músicas inéditas, vinis e outros mimos de Thom Yorke e sua turma. Enquanto na época a Box custou 40 libras, o material vendido pela internet não tinha preço. A determinação do valor era feita pelo próprio comprador. Sim, muita gente não desembolsou nada pelas canções. Na ocasião, o guitarrista Jonny Greenwood, explicou que a intenção não era atacar a indústria fonográfica, mas lançar logo o disco que vinha sendo trabalhado desde 2005. Impossível não despertar a reflexão sobre o download ilegal de música. “Achei que era algo interessante pedir que as pessoas comparassem a música com todas as outras coisas a que dão valor na vida”, filosofou Greenwood. “Nós trabalhamos por quase dois anos nesse disco. Agora diga quanto vale a nossa arte. Se acha que não vale nada, pague isso”, provocou ele na época. Segundo o levantamento da Billboard em média foram pagas 5 libras (em torno de R$ 18 reais) pelo In Rainbows. O dinheiro ficou com a banda e, ironicamente, a box foi mais vendida que o disco em MP3.

Lúcio Ribeiro Lembrou que Arctic Monkeys também lançou seu último disco na internet com o maior alarde. No momento em que chegou às lojas, o disco já bateu recorde de vendas. Moral da história, qualidade e criatividade nunca deixam de ganhar. Lúcio observou: ”Isto não quer dizer que seja este o modelo final do negócio”. Radiohead e Arctic Monkeys estavam no lugar certo, na hora certa e com a estratégia certa… “Até porque a gente não sabe o que bandas como estas têm em mente. Vão fazer a mesma coisa, vender de um modo antigo, ou inovar ainda mais?”, instiga o jornalista.
Tramando o futuro
Um dos cases legitimamente brasileiros de maior sucesso neste mercado é a Trama Virtual (www.tramavirtual.com.br). Em 1998 João Marcello Bôscoli e os irmãos Cláudio e André Szajman investiram na ideia da gravadora que se tornaria sinônimo de folego para os músicos independentes no Brasil . Na Trama, acima de qualquer interesse de mercado, está a liberdade criativa.
“Começamos o projeto porque tínhamos um acervo com cerca de cinco mil CDs/fitas demo e o ritmo de chegada continuava a crescer. Era uma angústia perceber o volume de produção musical local e a dificuldade de publicar essas obras. Foi aí que Cláudio, André e eu decidimos: vamos criar um selo virtual onde os artistas possam expor suas músicas através da auto-publicação. Assim nasceu a TramaVirtual”, explicou o músico, produtor e sócio do selo, João Marcello Bôscoli.

Uma negação da padronização músical e da fama a qualquer preço, a Trama estabeleceu modelos de vanguarda na cena brasileira. Bôscoli orgulha-se em falar do pioneirismo de sua plataforma: ”Nunca copiamos ninguém; criamos a TramaVirtual antes do MySpace; o padrão ‘de graça para você, remunerado para o artista’ também é algo inédito”.
A mecânica do download remunerado funciona como assistir a um programa da TV aberta, é de graça, mas os anunciantes cobrem o custo do artista. O valor a ser repassado às bandas é baseado na dinâmica de pagamento de royalties. Louvável iniciativa, onde todos saem ganhando. Outra novidade nesta mesma linha é o Album Trama (www.albumvirtual.trama.com.br), que permite que o usuário cadastrado baixe discos completos com encarte e tudo.
Para fomentar o mercado da música na íntegra, os parceiros da Trama dispõem de assessoria completa, com direito a produção de eventos, audiovisual, núcleo de moda e imagem. Não é a toa que esta verdadeira usina de talentos revelou a nova cara da MPB: Otto, Max de Castro, Luciana Mello, Fernanda Porto, Rappin Hood, Cansei de Ser Sexy, entre outros. Lista boa né… Qual será a próxima aposta de Bôscolli? “Entre tantos gêneros e segmentos é muito difícil dizer um nome… Vou falar de um grupo que respeito muito: Quinteto em Branco e Preto”. Faça seu download e aproveite a dica.
Box
TramaVirtual em números
Veja algumas estatísticas que ilustram uma fatia do mercado da música online no Brasil.

• Mais de 1 milhão usuários cadastrados;
• Mais de 16 milhões de downloads de músicas;
• Faixas em streaming já foram ouvidas mais de 50 milhões de vezes;
• A TramaVirtual conta com 63 mil artistas e mais de 157 mil músicas disponíveis gratuitamente;
• A média de pageviews é de 7 milhões

Mario Wagner, a pop art e a bomba atômica

Agosto 3, 2009 por saracadore

Publicado na Revista do Beco 4

O que têm em comum a revista Playboy alemã, a IDN Mag de Hong Kong, a Juxtapoz Mag de L.A., a ROJO de Barcelona e a Revista do Beco? Ok, todas são lindos e ricos projetos editoriais, que privilegiam a arte e estão na vanguarda do conteúdo em diferentes cantos do mundo. Outro ponto que os une é a presença do ilustrador Mario Wagner em suas páginas. Um dos artistas mais talentosos e criativos de sua geração vem de Cologne, na Alemanha, onde tiveram origem suas imagens que misturam a cultura pop com as angústias da vida moderna e incríveis doses de surrealismo.

Wagner se formou como ilustrador em 2002. “No mesmo ano havia descoberto a colagem. Eu sempre amei o expressionismo abstrato de Robert Rauschenberg, a precursora pop art de Richard Hamilton e o contraste das composições de Kurt Schwitterse. Tudo isso me inspirou e senti que era o momento para começar algo novo. Foi uma das escolhas mais acertadas da minha vida”, lembra o artista. Na época, o diretor de arte de uma famosa revista experimental alemã sobre música se encantou com seu trabalho e abriu espaço para uma ilustra de Wagner na capa de sua próxima edição. Foi um grande sucesso. Depois disso, bandas como a NotWist também caíram de amores pelo trabalho do cara, que adorou a experiência com encartes de discos. Com a exposição, novos clientes foram surgindo: Adidas, Mazda e Sony são algumas das marcas já estampadas pelas colagens do alemão. Seu trabalho não demorou em invadir grandes galerias pelo mundo, como a Cerasoli Gallery em Los Angeles. “As pessoas amaram” comemora Wagner. “Os temas fluem. Começo com uma foto e trabalho paralelamente com outras expressões, que conectadas pelo estilo, formam uma história. Todos os símbolos finalmente fazem sentido juntos. Em geral eles têm um sentimento típico, claustrofóbico, assustador, como se a qualquer momento uma bomba atômica fosse explodir”, entrega o artista.

Referências industriais, imagens de guerra e até mesmo bolos fofinhos são visitados por cores chocantes, montando as intrigantes cenas de Wagner. “Se suas figuras fossem uma música, diria que era uma mistura de Kraftwerk com olhos de Bowie”, comentei com o artista. “Kraftwerk e David Bowie? A mistura parece boa, mas eu prefiro a combinação de Einstuerzende Neubauten e The Cure”, responde o alemão, defendendo que seu trabalho sempre trará aspectos tristes, solitários e fortes, coloridos, com muito mistura. Um recorte da vida real, a partir de fotografias das décadas 50, 60, e 70, gerando uma fácil identificação. “São fotos de quando nossos pais eram jovens ou da nossa própria infância”, explica ele, que é do ano de 1974. Seu objetivo é contar uma nova fábula com elementos destas memórias e sentimentos.

As peças extremamente humanas do universo artístico de Wagner parecem confirmar que a ansiedade é uma sensação atemporal e que a insegurança provocada pelos improváveis contrastes de seus filmes em pausa reflete uma narrativa muito familiar a todos nós.

Comprove em www.mario-wagner.org

Severo em marcha: Válvulas e raios até explodir.

Agosto 3, 2009 por saracadore

Publicado na Revista do Beco 4

Era uma noite fria de segunda-feira quando, em marcha, os severos adentraram pela Lancheria do Parque. Rica Sabadini, Gustavo Chaise (vocais & guitarras), Reinaldo Migliavacca (bateria) e Edu Meirelles(baixo) estavam acompanhados pela fiel escudeira e produtora Cida Pimentel.

Não falta quem bote fé na Severo em Marcha: o disco “O tempo é quando eu quero” ganhou a produção de 10 das melhores cabeças musicais da cena gaúcha – Ray-Z, Leonardo Brunelli e Vini Tonello, Luciano Leães e Luciano Albo, Duca Leindeker, Alexandre Birck, Paulo Arcari, Lucio Dorfman e Iuri Freiberger. Overdose de bons padrinhos.

Confira o nosso papo, que rolou sob a benção de muitas cervejas.

Queremos saber sobre o CD “O tempo é quando eu quero”…

Rica: Estamos trabalhando com força na divulgação dele. O disco foi gravado com tecnologia SMD, a parte cromada dele é menor, causa menos impacto ambiental e sai mais barato: R$ 6, mas com qualidade top. A grande sacada dele é a produção: cada faixa foi entregue para 10 produtores diferentes, que emprestaram seu talento e o deixaram com uma unidade sem precedentes. A masterização foi incrível: foram válvulas e raios até o negócio explodir. A união das faixas nos parece como um livro de contos.

Meirelles: Eles só melhoraram, tanto tecnicamente como musicalmente. O Duca Leindecker, por exemplo, colocou mais uma guitarra e não foi nada que a gente não tenha curtido.

Rica: Claro que eles não iam decepar a cabeça de música nenhuma. Rolou uma troca muito legal, cheia de diálogo.

Quem compõe e o que inspira vocês?

Rica: A maioria é do Edu ou minha. Mas estão todos contribuindo, temos várias músicas na manga pra gravar um segundo disco. Nossa referência é o cotidiano, as coisas que curtimos. O Gustavo e o Iuri, ex baixista da banda, fizeram uma grande homenagem ao Richard Gere, lembrando do filme Gigolô Americano.

Cida Pimentel intervém: Sabia que ele morou aqui nos anos 80 e a cabeça dele é desproporcional ao corpo? Ele tem um cabeção de cearense. Morou na Casa dos Artistas (saudoso reduto roqueiro de Porto Alegre).

Vocês foram elogiados pelo Lúcio Ribeiro. Como receberam essa crítica tão massa?

Meirelles: Ficamos surpresos. Nosso material chegou nele não sei como e foi uma surpresa ouvir que somos bons, dito por quem todos querem escutar.

Rica: Tem várias surpresas. Esse é o lance da internet, temos uma comunidade forte que acredita na gente e se empenha. Tipo, 80% das pessoas que acessam nosso Myspace estão em São Paulo, Rio, Goiânia, Cuiabá, Massachussetts… No mundo!

E a cena local? O que aconteceu com ela? Vocês são remanescentes… Há 5 anos se revelava uma banda por semana…

Chaise: A coisa está defasada. Eu vim de Passo Fundo, assim como a maioria de nós (o Meirelles é de Porto Alegre), com a esperança de que aqui o rock acontecia de fato. Agora vemos essa decadência. Temos que dar a volta por cima. Têm várias bandas boas e a galera continua querendo escutar rock. Ninguém abandonou o rock em Porto Alegre.

Rica: Somos insistentes, por isso o nome da banda, Severo em Marcha. Passamos por momentos difíceis… Mas encontramos nosso som. Agora, retroceder jamais! Tudo que aparecer é combustível, até quem vem contra, a gente come, a gente queima e segue em frente.

Dá pra viver da música?

Meirelles: A música tem vários mercados: banda, jingles, estúdio, produção… Vai da capacidade de assimilar e querer trabalhar, saber usar as ferramentas disponíveis, ser criativo e ter muita vontade.

Rica: Com a Severo, ainda conseguimos o melhor, que é manter o lance autoral, não precisamos fazer cover. Exploramos muito os shows e curtimos tocar ao vivo. A grana vem do show, onde acabamos vendendo discos. Com a maioria é assim, até os grandes faturam mais com o show. As gravadoras são foda. As bandas têm que se empresariar. Somos como uma micro empresa.

Cida Pimentel coloca a colher: Tem que se vender para se manter. Estamos fazendo um lance muito legal em parceria com o Schutz, DJ do Beco: disponibilizamos uma música pra que ele possa mixar e transformar pras pistas. Queremos que as pessoas dancem Severo em Marcha! A pista de dança é muito importante: as pessoas têm que dançar, flertar e fazer amor.

Como foi a produção do primeiro clip: Bad Love?

Rica: Teve a direção do Juan Zapata. Foi uma viagem, montamos os equipamentos em plena Rua da Praia, desde 8h da manhã, apavorando o Centro. O Juan com duas câmeras fez chover entre a Esquina Democrática e a Uruguai. Sua linguagem é de documentário e ele foi brilhante ao adaptar isso para um clip de rock. Adoramos os resultados. Estamos abrindo caminhos pra rolar na MTV e no Multishow.

Tudo está acontecendo…

Rica: A Severo não para, mas não acelera o processo. Estamos em marcha. Escolhemos um cara que não era do vídeoclip, e fizemos um. Temos um disco com 10 produtores, que é uma ótima produção fonográfica, tem uma puta unidade e não é um Frank Stein. Todo o nosso trabalho vem acompanhado de pessoas antenadas, que olham pra frente e pro mundo. Temos uma relação super boa e cada um consegue deixar transparecer sua personalidade. Funcionamos bem, temos um casamento sem sexo.

“O espírito precede a matéria e unifica a banda. Ninguém usa uniforme e todo mundo é o que é. Severo Marcha é a não enganação”, decreta La Pimentel.

Ouça o som da banda em www.myspace.com/severoemmarcha .
licada

Liberdade: é por ti a nossa luta

Julho 8, 2009 por saracadore

Publicado no Blog da Maria Cultura

Imagine se povos extraterrestres decidissem invadir seu apartamento e morar lá. Você, simplesmente um humano, passa a ser tratado como um qualquer em seu próprio território, acuado. Já não pode mais andar pelado pela casa e tem que renovar todos os hábitos, repensar as atitudes. Começa a agir conforme a lei do invasor, viver sob domínio de estranhos, entrega-se, como se fosse domesticado. Alguns anos depois, os ETs brigam entre si e resolvem te dar uma ordem de despejo. Cansado, mas pronto para a resistência, você não vê alternativa, senão a guerra.

Não me ocorreu uma metáfora melhor para resumir a trajetória dos povos guaraníticos da região das missões gaúchas, que por volta do século 17 estiveram submissos a espanhóis e portugueses. Liderados pela figura mítica de Sepé Tiaraju, os Guaranis enfrentaram seus conquistadores com a coragem e a convicção dos bravos, defendendo seu solo como se fosse sua honra. “Esta terra tem dono!”, repetiam os legítimos heróis, que deram origem ao espírito lutador de cada gaúcho. Essa história pode ser sentida em todos os olhares lançados sobre as ruínas e sítios arqueológicos dos povos missioneiros.

Durante quase um século, os padres jesuítas mantiveram cerca de 40 mil guaranis organizados em comunidades hierárquicas com agricultura, artesanato e arquitetura desenvolvidas. Lá, os jesuítas incentivavam talentos musicais, ensinavam latim e outras habilidades aos índios. A chamada utopia de batina não durou muito. Com o Tratado de Madri, em 1750, Portugal e Espanha redefiniram as fronteiras de seus domínios na América. Os Povos das Missões se transformaram em território luso e os guaranis deveriam migrar para a Argentina e Paraguai, do outro lado do rio Uruguai.

Como se acordassem de um longo transe, os índios não aceitaram perder suas terras e reagiram com movimentos planejados e a estratégia de quem conhecia cada palmo daqueles campos. A peleia foi braba, mas a união das coroas espanhola e lusitana extinguiu os nativos na Guerra Guaranítica. Até hoje podem se ver as feridas abertas na região. E também o olhar guerreiro de quem sabe o valor da sua terra e da raça de seus ancestrais.

Para quem sai de Porto Alegre, são cinco horas de estrada até a pequena aldeia de São Miguel das Missões. Lá chegamos à Pousada das Missões, um hostel localizado a 150 metros das ruínas da imponente catedral dos ventos. As instalações são tão boas quanto o preço e o atendimento do lugar. Do café da manhã ao bistrô, eram nas orgias gastronômicas que podia-se encontrar o seleto público de visitantes: mochileiros do mundo, estudantes, jovens casais e famílias inteiras procurando sossego, bucolismo e história.

Para provar as delícias da culinária campeira e um ambiente mais do que peculiar, a opção foi o único restaurante aberto para o almoço no feriado: Kaiper Ely. Comida missioneira, de fogão a lenha e sem frescura: feijão mexido, arroz, batata doce e carne de porco na panela (a gordura é figurativa, vá com fé). A família do seu Luiz te recebe com toda a hospitalidade de quem não vê muitos visitantes durante a semana. Apesar de tantas belezas, ainda falta jeito com o turismo na região. Não se assuste quando o proprietário mostrar as fotos da festa junina de 20 anos atrás, ou apresentar o filho Zeno Alcides. Eles são inofensivos e amores de pessoas.

A caminhada digestiva é no próprio sítio arqueológico de São Miguel. O passeio sai pela bagatela de R$5 (a meia-entrada para estudantes e melhor-idade funciona). Reserve algumas horas para desbravar cada ângulo da enormidade do lugar. O conselho é contemplar. Com sorte você pega um dia de sol, assim como o que passamos lá. A noite estava igualmente limpa e povoada de estrelas. Ela é o cenário do Espetáculo de Som e Luz, que emociona ao contar a história das reduções jesuíticas desde o seu nascimento, desenvolvimento até a crise e a decadência dos guaranis. As vozes de Fernanda Montenegro, Paulo Gracindo e Lima Duarte, entre outros, engrandecem o show. Entender a história contada pelos seus heróis e pela própria igreja é uma experiência incrível.

Perto dali estão os sítios arqueológicos de São João Batista, São Lourenço e o Santuário do Caaró. Os dois primeiros são essenciais, com seus cemitérios centenários em meio a paisagens esquecidas pelo tempo. Em Caaró, a homenagem aos mártires da região, que não foram poucos. Vale também a visita à Santo Ângelo, cidade simpática que replicou a catedral jesuítica de São Miguel de maneira muito fiel e respeitosa.

A leitura obrigatória que antecede esse passeio/aula de história é da obra de outro ícone das Missões: Érico Veríssimo. Ninguém contou essa saga melhor que ele em sua antológica trilogia “O Tempo e o Vento”. Um registro das nossas origens para a eternidade. Do alto dos campos de São João Batista e São Lourenço, entre vestígios, verde, ares de guerras e heroísmo, é fácil lembrar o grande escritor. Logo o imaginário recria a imagem clássica de sua heroína Ana Terra, dizendo em tempos de espera: “Noite de vento. Noite dos mortos.” Uma ode aos que lutaram e morreram por seu chão.

“Minha alma canta… Vejo o Rio de Janeiro…”

Junho 30, 2009 por saracadore

Para o Portal MBM

Para quem aterrissa no Galeão ou no Santos Dumont é quase impossível não lembrar dos versos do clássico “Samba do Avião”, do poeta Tom Jobim. Por sinal, foi a Bossa Nova, movimento cultural protagonizado por ele e outras estrelas, que melhor traduziu os desenhos da cidade maravilhosa.

Apesar de seus primeiros colonizadores terem sido os franceses, por volta de 1555, foi em 1º de março de 1565, que Estácio de Sá garantiu no local a ocupação portuguesa e fundou oficialmente a Capital Real do Rio de Janeiro. Em 1763, o Rio tornou-se a sede do Vice-reino do Brasil, recebendo em 1808 a família real portuguesa. Esta época foi marcada por muitos avanços na região, inclusive a inauguração do Jardim Botânico, atração até hoje obrigatória. O Rio foi também capital da República e um dos símbolos mais fortes desse período foi o ex-presidente Getúlio Vargas. A parada no Palácio do Catete é uma das maneiras mais proveitosas de entender este momento de nosso país.

Com seu imensurável peso histórico, paisagens magníficas, cultura efervescente e estrutura de metrópole, o Rio de Janeiro é hoje uma das cidades mais importantes do Brasil, tendo o turismo como uma de suas principais frentes. O roteiro na capital carioca começa inevitavelmente pelas praias. A orla da zona sul é a parada preferida dos turistas, que se concentram em grande parte nos bairros de Copacabana, Ipanema e Leblon. Redes hoteleiras, opções gastronômicas e de compras para todos os bolsos não faltam na região. Reserve um dia para caminhar tranquilamente entre o Arpoador e o mirante do Morro Dois Irmãos. O passeio valerá a pena, ainda mais se você incluir paradas estratégicas para aquela água de coco gelada, um bom banho de mar e a simples contemplação de um dos cenários mais bonitos e animados do Brasil. Aos que preferem a curtir a natureza sem tanta badalação, a dica é a praia de Grumari, além da Barra da Tijuca. Este é o bairro menos populoso da cidade e tem grande parte de sua área sob proteção ambiental.

Outro ponto essencial é a Lagoa Rodrigo de Freitas, onde se localiza o maior centro gastronômico aberto da América Latina. Um dos lugares mais concorridos pelos formadores de opinião, a Lagoa é palco de shows, acontecimentos culturais e competições esportivas, um verdadeiro centro de lazer com todo o charme carioca. Como em quase todas as cenas da zona sul, é ele, o Cristo Redentor, quem de braços abertos abençoa a Lagoa Rodrigo de Freitas.

O monumento mais emblemático dos cariocas fica no morro do Corcovado. A estátua de 38 metros de altura foi inaugurada em 1931 e encanta visitantes do mundo inteiro, não só pelo simbolismo, mas pela vista estonteante que proporciona da cidade. Outro ponto onde a visão é privilegiada é o clássico Pão de Açúcar, no Morro da Urca, junto à Praia Vermelha. Lá a atração é o bondinho que brinda seus tripulantes com mais paisagens encantadoras.

Se o Rio de Janeiro enche os olhos pelos seus cenários, a vida cultural da cidade alimenta o espírito. É no Centro que se encontram os prédios históricos, recheados de arte conservada ou contemporânea. Uma sugestão é iniciar o passeio pela Lapa, conferir os tradicionais arcos boêmios e, com tempo, subir o bonde para Santa Tereza. No retorno ao Centro, a Cinelândia é onde estão suntuosas construções como o Museu Nacional de Belas Artes e o Teatro Municipal. Perto dali, estão o Paço Imperial e o Centro Cultural do Banco do Brasil, que sempre traz novidades e excelentes mostras. Finalize o passeio com um delicioso pastelzinho de belém na Confeitaria Colombo, que entre suas delícias preserva com grandiosidade os ares do tempo do império.

Após testemunhar tantas belezas, é fácil entender porque o Rio de Janeiro inspirou e é cantado até hoje por tantos poetas.

Cidade Maravilha

Junho 23, 2009 por saracadore

Para a Revista GOL em jun/09

Esta é a época mais interessante para viver e sentir porto alegre. Quando o frio brinda a cidade, a gente e as paisagens locais se tornam especialmente belas e inspiradoras.

A capital gaúcha tem o ambíguo privilégio de conhecer bem as quatro estações do ano, às vezes no mesmo dia. Mas quando a temperatura baixa, os termômetros de beleza e poesia sobem. O frio deixa ainda mais brilhantes os horizontes do Portinho. O vento gelado acentua as luzes do skyline de Porto Alegre, com aquele pôr-do-sol misto de laranja e cor-de-rosa.
Em seus contornos de metrópole, o alegre porto dos gaúchos se volta para pequenos redutos culturais e notívagos onde, aliás, encontra a sua identidade. Escolhemos alguns bairros para ilustrar este espírito artístico e entre paradas obrigatórias, descobrimos dicas douradas e o sorriso fácil dos porto-alegrenses.

Centro Cultural
Como em qualquer grande cidade, caminhar no Centro de Porto Alegre é uma mistura de aventura e encantamento. Em meio à correria é possível admirar a cultura de seus prédios históricos. O Mercado Público, no Largo Glênio Peres, data do ano de 1869. Lá, as tradicionais bancas de especiarias dividem espaço com restaurantes clássicos onde se come de tudo, mas principalmente bons pescados.

Experimente caminhar pela Rua dos Andradas, ou Rua da Praia, a mais antiga da cidade. A parada na Praça da Alfândega será inevi¬tável. Ela abriga a tríade dos museus mais emblemáticos da capital: o MARGS e seu acervo com quase três mil obras de artistas locais, nacionais e internacionais; o Memorial do Rio Grande do Sul, que conserva elementos da história gaúcha; e o Santander Cultural, uma união de arquitetura clássica com mostras contemporâneas que resulta em um contraste interessante.

Seguindo pela Rua da Praia, chegamos à Casa de Cultura Mário Quintana. Entre os anos de 1968 e 1982, o antigo Hotel Majestic serviu de residência deste grande poeta que revela¬va a cidade com sensibilidade ímpar. Hoje, transformado em um espaço cultural, oferece exposições, palestras, oficinas, salas de cinema e cafés. Perto dali, chegamos na Usina do Gasômetro, às margens do Guaíba, o emblemático lago (equivocadamente chamado de rio) que banha Porto Alegre e define muito da beleza e da personalidade da cidade.

O fim de tarde à beira do Guaíba mostra o lado mais bucólico da cidade. Perto dali, o Museu Iberê Camargo é um gigante branco cravado na paisagem. Em nossa visita pelo acervo do artista, cru¬zamos uma figura incomum fotografando o ambiente. Ao puxar conversa com o alemão Matthias Heskamp, arquiteto e mochileiro de sotaque bem carregado, soube que ele trabalhou em Portugal no escritório de Álvaro Siza Vieira, responsável pelas peculiares formas do prédio. Medindo palavras, Matthias explicou que ao projetar o museu, Siza procurou interagir com aquele cenário har¬moniosamente e de forma artística.

Ainda que mais discreta do que em outros bairros, a noite tem seu lugar no Centro. Para descobrir, acompanhamos a publicitária Camila Farina, agitadora cultural da cidade. Segundo ela, nada pode ser mais delicioso do que assistir a um espetáculo no Theatro São Pedro e tomar um chope bem gelado no Odeon. O pequeno piano bar recebe informal¬mente grandes músicos como Jorginho do Trompete e o flautista Plauto Cruz. “O Odeon é pequeno, não aceita cartão, não tem frescura, mas tem boa música. Aqui, New Orleans encontra Copacabana, como ouvi alguém dizer por aí”, completa Camila, sorrindo.

O Moinhos de Vento e suas calçadas da fama

No bairro Moinho de Ventos fica a região mais sofisticada de Porto Alegre. O Hotel Sheraton e o Shopping Moinhos formam um luxuoso casamento na ponta da Avenida Padre Chagas. O almoço no saguão do hotel é uma boa escolha: todas as sextas-feiras, o Bistrô Porto Alegre celebra a culinária francesa. Outra opção de estadia na região é o Blue Tree Tower, que tem uma privilegiada visão da cidade.

Um chimarrão no Parcão ou nos jardins do DMAE (a empresa de águas) aquece para o desfile pelas lojas mais interessantes de Porto Alegre. Se puder investir, procure a Conte Freire, multimarcas de luxo que oferece desde enoteca até importantes grifes nacionais e importa¬das. A vitrine da Vulgo certamente chamará a atenção pelas suas peças divertidas, funcionais e pautadas pela qualidade.

Perto dali, um clássico: a culinária tailandesa do Koh Pee Pee. Há 12 anos instalado em um antigo casarão, o restaurante tem temperos, louças e experiência gastronômica vindos diretamente da Tailândia. Mas a hospitalidade e a simpatia do proprietário, Eduardo Sehn, são originais da Praia do Rosa mesmo, em Santa Catarina.

Entre boêmios e intelectuais

No bairro Bom Fim, o ecletismo toma conta das ruas e reflete um passado de resistência política e cultural que acabou formando o perfil de seus frequentadores. Escolha um domingo para viver toda a diversidade do Brique da Redenção, a clássica feira onde reinam artesanato local, antiguidades e liberdade de expressão. Lá está o ponto de encontro de movimentos sociais, partidos políticos, artistas de rua e outras figuras desse universo que desconhece preconceito.
Pelas redondezas uma boa lista de bares e cafeterias. A dica é experimentar o Gibi, com seu clima intimista e ambiente tomado pela sensualidade dos quadrinhos italianos. Vale conferir as deliciosas bruschettas de lá.

Depois, dispa-se de qualquer pretensão e visite a Lancheria do Parque. Opte pelo X-Coração com algum suco natural servido em liquidificador. “A Lancheria do Parque representa bem o clima de boemia intelec¬tualizada que o Bom Fim carrega. Os garçons têm coração de ouro e na segunda vista já são teus melhores amigos”, atesta o vocalista da banda Bidê ou Balde, Carlinhos Carneiro. Ele lembra ainda que nas proximidades do bairro está uma das mais tradicionais casas noturnas da cidade, o Porão do Beco. Mensalmente, a casa mais eletro-rock de Porto Alegre monta o palco para a Império da Lã. A banda reúne amigos de diferentes projetos musicais que queriam ampliar seus repertórios. A cada festa eles reproduzem um álbum clássico comple¬to de grandes nomes da música. Fomos conferir a noite em que Bob Marley era o protagonista e a trilha sonora foi o disco “Catch a Fire”. Para nossa surpresa, quem se divertia ao som da Império da Lã era o ator Reynaldo Gianecchini.

Não longe dali, a noite ferve no Ocidente. Em seus 28 anos, o bar é palco de momentos artísticos históricos. Durante a semana rolam shows e o tradicional Sarau Elétrico, que mistura música e literatura. Os sábados são temáticos. Boas referências para se jogar na pista: a festa Pulp Friction homenageia Tarantino, enquanto a Blow-Up come¬mora o cinema italiano/mod dos anos 60.

Noite em alta na Cidade Baixa
A Cidade Baixa é a mais democrática passarela noturna de Porto Alegre. Comece pelo Mercatto d´Arte, um restaurante que abusa da memorabilia, já foi antiquário e hoje é o preferido de quem quer um clima mais romântico.

Perto dali, o Mufuletta convida para um bom bate-papo, cerveja gelada, som agradável, paredes forradas de arte e cardápio espe¬cial. Se você gosta de comida com muita pimenta e condimentos, não deixe de provar o risoto Jambalaya.

Para tomar um chope tirado com perfeição e se deliciar com petiscos de boteco, a pedida é o Natalício. Um misto de bote¬quim carioca com herança pernambucana.

E depois de passear pelos bairros da cidade, dificilmente você voltará para casa sem entender o porquê da capital gaúcha se chamar Porto Alegre.

Sonha, Alice

Junho 9, 2009 por saracadore

Exercício para o curso de Criação Literária ministrado por Marcelo Spalding na UniRitter

Era feliz como Alice. Em uma noite gelada de chocolates quentes, algo antes inofensivo encheu seus olhos de tanta angústia. Como se não existisse um braço amoroso, desatou a chorar. Teve uma saudade incontida do que nunca viveu. Doía-lhe a falta do amor, que entre todos, não vai ter.

Pensou no super-herói que nunca apareceu, nem nas embalagens dos cereais matinais. No mocinho desconhecido que não espantou seus monstros de estimação, moradores antigos do pé da cama. No galã com quem nunca vai viver final de novela.

Lembrou que não precisava de nada disso. Ela nunca foi de comer sucrilhos, nem alimentava assombrações e, muito menos, acompanhava folhetins. Por que se lamentar agora? Desligou a TV, beijou com paixão, vestiu seu melhor sorriso e voltou ao país das maravilhas.

Snake eyes

Maio 26, 2009 por saracadore

Terceiro exercício para o curso de Criação Literária ministrado por Marcelo Spalding na UniRitter

O suor frio escorria pelas têmporas. Uma euforia descontrolada dominava sua mente e qualquer sinal de cautela o tinha abandonado. Já não sabia há quantas horas as anfetaminas o mantinham acordado e aquele pano verde parecia ganhar vida.

O croupier fitava seus olhos quase que com pena, estava acostumado a testemunhar fracassos. Vidas perdiam-se constantemente naquele lugar e, para ele, era chegado o momento da decisão. O tilintar dos dados e o movimento da roleta pareciam uma tortura chinesa, enquanto a mistura do perfume das mulheres lhe atordoava os sentidos. Seu único propósito naquela noite era quitar as dívidas com a máfia, caso contrário estava assinada sua sentença de morte.

Já havia ganhado mais do que poderia imaginar e menos do que precisava para se safar. O certo é que estava cego pela ambição. O risco era grande e ele escolheu o tudo ou nada. Snake Eyes era uma possibilidade mais que remota. Daquela combinação dependia a piedade dos homens de preto que o esperavam na porta, com seus revolveres discretamente engatilhados. Fez a loira misteriosa que estava ao seu lado soprar as pedras de leve e, com a benção de Deus e a mão do Diabo, atirou os dados. Sua sorte estava lançada.

Enquanto as seis faces faziam tabela com a mesa, sua mente acelerava para trás. Pensou na mãe que o criou à custa dos favores prestados para aqueles homens sinistros que batiam na sua porta simples. Lembrou de quando ela contou sobre a morte do pai, de como tinham devolvido seu corpo na porta de casa. Eram ao todo treze tiros, mas ela ainda pode ouvir seu último suspiro de dor. Lembrou que não teve como escapar daquela vida de grandes serviços e pequenas recompensas e das trapaças que colocaram sua cabeça a prêmio. Os erros do pai eram sua herança: perdeu o dinheiro da sua facção no mesmo lugar onde estava tentando recuperar, naquelas malditas mesas de jogo.

Nos dados, apareceram três e quatro. Rezou por um único tiro certeiro.

Máquina de escrever

Maio 26, 2009 por saracadore

Miniconto para o curso de Criação Literária ministrado por Marcelo Spalding na UniRitter

Escrevia sobre cinema, hospital, música, financiamentos, teatro, condomínio de luxo, festas, supermercado, fantasias, cultura, hotel fazenda, amores, gastronomia, política, pôr-do-sol, adubos fertilizantes e sobre os aposentados jogando gamão nas praças da cidade.
Vivia escrevendo e fazia de suas letras diversão e alimento. Tinha nascido para isso.
Estava escrito.

Apoteose para Radiohead

Maio 22, 2009 por saracadore

Para Revista do Beco #3

Thom Yorke é feio. Fiquei pensando enquanto algumas adolescentes bem atrás de mim esganiçavam gritos de lindo para o cara. Será que elas não viram as fotos do gringo correndo na praia de Ipanema com aquela barriga branca proeminente? Muitas das 24 mil pessoas que estavam na Praça da Apoteose para o Just a Fest carioca pareciam estar ali pelo status de mega evento e não simplesmente pelas bandas. Ouviam-se comentários do tipo: “Depois de Los Herrrrmanos vai tocar um tal Kraft não sei o que…” Desinformação do público a parte, quem estava lá viu três excelentes shows com iluminação e acústica impecáveis. Assim como reza a cartilha dos bons mega eventos.

Los Hermanos tocou em casa, e bem à vontade, a maioria de seus hits. Estavam despretensiosos como de costume, mesmo carregando a responsa de abrir para Kraftwerk e Radiohead. Amarante lembrou ao público a sorte que eles tinham em estar ali, Camelo agradeceu e, mais tarde, em seu blog o tecladista Bruno Medina, comentou a emoção de ver Thom Yorke requebrando ao ouvir Morena na passagem de som dos irmãos.

Quando Kraftwerk surgiu no palco, o minimalismo da cena prenunciava uma grande apresentação. Gosto muito da sonoridade industrial dos alemães. Lembrei na hora do show de Laurie Anderson no teatro do Sesi. Apesar da senhora Lou Reed ter uma performance mais expansiva e natural frente ao quarteto robótico, ambos são precursores, ativistas e, acima de tudo, tecnológicos. O grupo, que da formação original só conserva o tecladista Ralf Hutter, fez um show cronometrado, com versões reduzidas de alguns hits que são verdadeiras sinfonias e algumas músicas essenciais fora do menu, como Electric Café. Man/Machine abriu caminho para a viagem que seguiu pela Autobahn, depois a bordo do Trans Europe Express e acabou em Musique non stop. Destaque para os incríveis Robots que tomaram o lugar dos caras no palco com carisma de humanos e para a canção protesto Radioactivity, que de Hiroshima a Chernobyl provocou a platéia. O impacto das projeções casou com a postura minimal do Kraftwerk para compor o cenário de um belo espetáculo techno.

Encerrando expectativas, Radiohead não demorou a ocupar seu lugar na Apoteose. Agora o espaço parecia bem mais lotado. Pista cheia e arquibancadas razoavelmente ocupadas. A cortina de tubos luminosos estrategicamente distribuidos no palco causava um efeito de cromoterapia. Aqueles gritos de lindo me fizeram lembrar que Thom Yorke é feio, entretanto é inegavelmente sedutor. Abre os braços para cantar All I need, depois finca os dedos no piano com fúria e beleza. Já em There there, os guitarristas Jonny Greenwood e Ed O’Brien assumem dois bumbos de batera e mandam ver a cadência.

A banda interagiu com a platéia e não negou o rótulo de politicamente correta. Na entrada da Apoteose a ONG Amigos da Terra colhia adesões para algum abaixo assinado. Em dado momento do show, Yorke fez alusão a como os norte-americanos tentam foder como o Brasil. Arrancou ainda mais simpatia.
Na medida em que o show crescia a melancolia eletroprogressiva nas canções indispensáveis da banda deixavam a platéia em delírio hipnótico. Idioteque, sem dúvida, foi um dos pontos altíssimos da noite, que resumida no péssimo português de O’Brien foi “do caralho”.

The Bends teve poucas execuções no RJ, mas o hit Just estava guardado para o bis – que teve dose dupla. Ao final das mais de duas horas de show, como já havia acontecido recentemente no México, o eterno weirdo brindou os fãs com Creep, provocando um coro unissone do público que não se cansou nem por um minuto.

Moral da história: adquiri meu In Rainbows na ótima Livraria da Travessa, no CCBB, e fui ver a exposição d´Os Gêmeos com um sorriso no rosto.